Política com sabor a chocolate

Na passada quinta-feira, PPC decidiu pôr os óculos – em ocasiões como estas, qualquer toque de estadista é sempre bem-vindo – e anunciar ao país mais cortes. Sempre mais, e sempre mais brutais: abolição do subsídio de natal e férias, aumentos de impostos aqui, redução de despesas ali. A receita do costume, mas sempre a um nível mais acima.

Claro que no dia seguinte, no Parlamento, a resposta não se fez tardar. Sempre intimamente conectada com a ordem do dia, a Assembleia discutia o…ucal. Seguindo uma notícia do Diário Económico que dava conta da taxa do IVA sobre o leite achocolatado subir de 6 para 23%, Louçã disse, e passo a citar, “salvem o leite achocolatado era a bandeira do PSD nas últimas eleições”. Jerónimo continuou no mesmo registo e disse que o primeiro-ministro que ele “sabia lá o que era a vida”.

 

Mas não, parece que era mentira. Afinal PPC deve mesmo saber o que era a vida porque garantiu que o leite achocolatado ficava com a mesma taxa de IVA. E o país pode respirar de alívio.

 

Mas – ah! valente – Passos não se ficou por aqui. Ia perdendo a cabeça quando anunciou que ia implementar um imposto especial sobre os lucros. Depois o seu habitual bom-senso deve ter voltado quando, obviamente, preveniu que o imposto era temporário e só entra em vigor em 2012. Sinto-me tão protegido com este primeiro-ministro.

 

Para rematar, e respondendo às críticas da bancada do PS, Passos lançou uma sempre inesperada bomba: “as medidas são minhas, mas o que as causou não”. Choque! E repentinamente o líder da JSD, qual polícia-de-choque (algo com uma herança do PSD bem marcada) do governo, lembrou-se que devia escrever ao PGR para investigar a herança deixada pelo anterior governo de Sócrates.

 

É pena. É pena que, à medida que as medidas de austeridade vão subindo de tom a ponto de até os jornais alemães as classificarem de “draconianas” e a Comissão Europeia alertar para a “inteligência” necessária (tão necessária, precisamente) na sua aplicação, a política que se pratica em torno delas seja cada vez mais ridícula. Só não é cómica dada a gravidade da situação em que estamos. É pena que enquanto são cortados dois ordenados por ano às pessoas, se discuta o ucal, os bilhetes do benfica e as batatas fritas pré-congeladas. Sem menos dois ordenados por mês, a taxa de imposto é tanto mais irrelevante quanto menos pessoas os puderem adquirir.

 

É sobretudo, preocupante que no meio do folclore à volta do leite achocolatado e das eternas culpas do governo anterior, tenha passado despercebida uma notícia alarmante que dá conta do presidente da Associação Nacional de Sargentos anunciar que os militares estão “com a população, contra a austeridade”. Ter os militares tão abertamente contra um governo, numa democracia de apenas 35 anos, precocemente envelhecida e por eles imposta, nunca foi bom sinal para nada.

About Rodrigo Vaz

My life is pretty much like my hair. It's a mess and I know it could be a lot better. I just don't know how. Ver todos os artigos de Rodrigo Vaz

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