Onde está a esquerda?

Encontrar a esquerda é o grande desafio, não só para qualquer pessoa que se ache de “esquerda”, mas para qualquer democrata. Afinal, onde está a esquerda?

Na resposta imediata à crise de 2008, vimos aquilo que agora parece ter sido uma “precipitação” para o keynesianismo, de modo a evitar uma crise social mais grave ainda em vários países. No entanto, pouco depois – e especialmente na Europa – essas soluções foram abandonadas e o centro do debate voltou-se para crise financeira motivada pela inevitabilidade de os Estados terem de minimizar os efeitos do descalabro económico. Como resultado, os indicadores sociais caíram a pique: desemprego e pessoas a viverem abaixo do limiar da pobreza a subir. Também a subir (!) estiveram as disparidades entre ricos e pobres. Uma crise social profundíssima instalou-se na Grécia, e parece ficar para durar, com riscos de contaminação até agora incógnitos.

Porque a esquerda não soube assumir o seu lugar, porque se posicionou desde os anos 1980 na defensiva, quase que a pedir desculpa por ser quem/o que é, desapareceu do debate político enquanto opção viável. A crise de 2008, supostamente o palco para um regresso en masse da esquerda, trouxe um vácuo comprometedor por parte dos partidos de esquerda na Europa, sinal de quem não acompanha os tempos. Novos líderes precisam-se, e urgentemente. Mas não com a mesma urgência com que precisamos de quem pense, de facto, a esquerda e a ponha de volta em cima da mesa como rumo a seguir.

Alternativas haverá sempre. O debate polarizou-se, inacreditavelmente, à direita. Foi sobretudo aproveitado por duas correntes (bem distintas, por sinal) da direita: a direita liberal e a extrema-direita. A primeira conseguiu a proeza de, no meio de uma crise social motivada pelos abusos e pelo “fechar-de-olhos” das entidades reguladoras um pouco por todo o lado, advogar soluções que passam pela diminuição do fardo estatal – o mesmo que nos poupou do colapso económico ainda há uns meses: menos impostos, menos e mais barata regulação, enfim, a nova e mais contagiosa vulgata desde o marxismo. Estas “soluções” são, na opinião dos “especialistas” – os mesmos que nos conduziram até aqui, a única forma possível de sobrevivermos. Portanto, é como meter um paralítico a fazer os 100 metros barreiras. Por não fazer sentido nenhum, pode ser que funcione. Afinal (de contas, exacto), menos por menos, todos sabemos, dá mais.

Enquanto isto, a esquerda desaparece aos poucos de todos os governos europeus. Já foi Portugal, já vai Espanha – não me falem da Grécia. Até quando?

About Rodrigo Vaz

My life is pretty much like my hair. It's a mess and I know it could be a lot better. I just don't know how. Ver todos os artigos de Rodrigo Vaz

One response to “Onde está a esquerda?

  • indulgencias

    Caro Rodrigo

    Não devias politizar tanto os efeitos da crise. Até porque na nossa situação eles derivaram muito mais de más práticas de governos de esquerda, que não souberam controlar a despesa pública e continuaram incessantemente a investir em obras públicas, sem impedir que magicamente os seus preços fossem aumentando durante a construção, isto em regimes de PPP’s. E isto é só a ponta do icebergue.

    A verdade é que fazer apenas ataques a facções políticas é ter uma perspectiva limitada do real problema, incompetência política independente de cores ou “slogans”. Desde meados dos anos 90 que se assiste a um enorme declínio de um corpo político profissional, substituído por uma subida substancial de uma maquina governamental meramente partidária. Acrescentem isto à arrogância dos últimos 3 governos, desinteressados em ouvir previsões bastante precisas de especialistas em economia, considerados pessimistas crónicos, e temos o cenário actual.

    Não acho de todo pouco sensato, reduzir o domínio do estado no que toca à intervenção na economia e no seu papel de apoio social, visto que se é para sermos governados por uma elite incompetente, é no mínimo justo que vão reduzindo as despesas de uma instituição incompetente, como modo de fazer reparações económicas e atenuar a dívida.

    Claro que nos casos de pobreza que referiste os efeitos sociais podem ser graves, não o nego, mas relembro-te que o sistema de abonos familiares e subsídios de desemprego nas grandes cidades é insustentável, com pessoas a recebe-los quando podiam estar a trabalhar.

    But still, that’s not the point.

    Não quero alargar este post, que decerto que irá dar numa conversa quando formos sair, e por isso vou directo ao assunto. Reforço a ideia de que um dos principais culpados da crise são os cidadãos portugueses que cada vez menos agem como tais.Quando se tenta discutir política,a maioria utiliza a estratégia de chavões ideológicos ( á lá PCP) que cospe em palavras exaltadas, desde a história do papão chamado especulação, à culpabilização os ricos e as elites , difamação da classe política sem sequer saberem o que de mal estes fizeram, ou ainda dissertações sobre o Apocalipse que está para vir, gerado por uma sociedade cada vez mais distante dos valores judaico-cristãos (seriously?). Uma minoria faz reclamações mais informadas, restando por fim uns quantos sujeitos que, cientes do seu dever cívico, informam-se, estão a par do cenário político e exercem os seus direitos de modo a exigir mais qualidade na governação de Portugal.

    O primeiro governo, que estabeleça medidas contra a corrupção e a criminalize é que irá concretizar uma mudança, pois a meu ver Rodrigo, o principal problema da esquerda é ter o azar de muitas vezes, governos quererem um estado demasiado extenso e serem líderados por indivíduos com uma competência diminuta, que nesse molde, a sua corrupção e ineficácia forçosamente afecta demasiados aspectos da vida de cada cidadão.

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