O admirável mundo pós-fascista

 

Nos últimos anos, vimos – e ainda vemos – a direita a crescer de forma avassaladora na Europa. Hoje, apenas dois executivos europeus se intitulam socialistas: a Espanha (cujo PSOE sofreu uma pesadíssima derrota nas últimas eleições e irá abandonar o poder) e a Grécia, a braços com uma crise gravíssima, com consequências sociais tão avassaladoras quanto imprevisíveis quanto ao futuro político grego[1]. Todos os outros países estão a ser governados por partidos de centro e/ou de centro-direita, o que na minha opinião tem como resultado imediato a falta de coesão a que estamos hoje a assistir no seio da União Europeia.

 

No entanto, não foi apenas a direita a crescer. A sua irmã feia, a extrema-direita, seguiu-lhe as pisadas, disparando nas intenções eleitorais um pouco por toda a Europa. Em França, a Frente Nacional de Le Pen (agora é a filha de Pen, Marine) ganhou tanta popularidade que segundo algumas sondagens os eleitores preferem-na a Sarkozy. Na Finlândia – e nós só sabemos todos esta parte porque eles iam-nos cortando a ajuda – um partido de extrema direita chamado True Finns, os Verdadeiros Finlandeses, alcançou à volta de 20% dos votos. Na sempre-tolerante Holanda, num fenómeno que já vem pelo menos desde 2006, o partido extremista de Geert Wilders, marcadamente anti-Islão vem ganhando cada vez mais popularidade e é a terceira maior força do Parlamento holandês.

 

A subida da extrema-direita é tão acentuada que nalguns casos, chega a fazer sombra à direita moderada e obriga-a a endurecer a retórica. Na França, pressionado pela popularidade galopante da filha de Pen, Marine, Sarkozy vocifera cada vez mais alto contra os imigrantes, em particular os imigrantes árabes. A questão da proibição do véu islâmico, escondido (tal como a burqa, curioso) numa lei que proíbe qualquer elemento que impeça a identificação de uma pessoa (era uma vez o Carnaval de Paris) foi uma das várias tentativas de Sarkozy recuperar a popularidade perdida para a sua direita. O que Sarkozy fez foi recuperar algo defendido pela filha de Pen, Marine, com uma retórica muito parecida à dela.

 

Infelizmente, esta tendência não é isolada. Este fenómeno acontece em vários países: são vários os líderes de direita, supostamente moderada, que de modo a não perderem o seu eleitorado, endurecem o seu discurso – e, pior, o seu modo de governo. Não percebem que, para além do pormenor que seria defenderem aquilo em que supostamente acreditam, numa determinada ordem social mas que inclua todos, só ganhariam com isso.

 

Mas, de que extrema-direita estamos a falar? Se olharmos para a filha de Pen, Marine, veremos uma líder que partilha de muitos dos valores da extrema-direita “tradicional”, passe a (aparente) redundância. No entanto, há desde logo um aspecto que salta à vista: vemos uma líder, não um líder. Divorciada e que fuma, ainda por cima. Sinal de que a extrema-direita está em declínio? Muito pelo contrário. A extrema-direita apresenta-se hoje, diria, não neo-, mas pós-fascista. Deixou de lado o anti-parlamentarismo, o seu lado anti-democrático, a pouca importância que dava à igualdade de géneros. O anti-comunismo perdeu relevância por razões óbvias. A extrema-direita hoje joga dentro das regras democráticas. Isso seriam boas razões – se não estivesse a jogar tão bem e a conquistar fatias tão grandes do eleitorado. Além disso, os seus líderes são novos, bonitos e bem-penteados, ao contrário dos clássicos rabugentos, velhos, avozinhos líderes. Os movimentos de extrema-direita já não se parecem com o movimento-tipo do ex-combatente. Conseguiram a proeza de, sem o excluir, construir à sua volta uma base de apoio que atraiu o típico jovem urbano-que-vive-num-subúrbio-complicado, desempregado, abaixo dos 35 (ou, claro, não seria considerado jovem), que só quer estabilidade, segurança e emprego. Sim, aquelas coisas do respeito pela diferença seriam bem-vindas, mas o que mais preocupa esta geração é, antes de mais, o seu eu e o seu bem-estar, o que é facilmente empolado pelos números do desemprego jovem (em Portugal, por exemplo, ultrapassa os 28%).

 

 

Mas a verdadeira razão pelo sucesso actual (e faço votos que efémero) da extrema-direita não se prende com a eficácia dos seus líderes. Sim, os líderes ajudam a explicar isso, mas a chave está na falência de soluções moderadas com que nos deparamos. Aqui, esquerda e direita moderadas dividem culpas: a social-democracia tem andado desde os anos 1980 como que a pedir desculpa, como Tony Judt refere em Ill Fares the Land. A consciência colectiva perdeu-se e o que interessa é o que é melhor para nós, independente de estar certo ou errado, no que certo ou errado significavam há umas décadas atrás – o bem-estar geral da sociedade. A esquerda esqueceu a sua génese e não tem conseguido apresentar propostas alternativas. A crise que se seguiu ao crash do Lehman Brothers em 2008 era a altura ideal para surgirem novos ideólogos à esquerda, novos rumos. Nada. Em vez disso, silêncio, a mesma postura dogmaticamente aberta em relação ao mercado. A apatia da social-democracia foi de tal ordem que hoje os argumentos ultra-liberais de que a crise se deve à excessiva regulação – e que tiram do sério qualquer pessoa que tinha visto um telejornal nos últimos dois anos – são, no mínimo, tolerados, se não até influentes – aí está a ascensão de governos liberais a prová-lo.

 

No entanto, também a direita tem várias culpas no cartório. O modelo europeu não era só social-democrata: a democracia cristã desempenhou um papel sensivelmente da mesma importância. Hoje, a retirada do que dessa democracia cristã europeísta resta, em nome da lógica do interesse dos Estados, está a ser fatal para o projecto europeu, independentemente da perspectiva que se tenha dele. E não é a extrema-direita, pós-fascista ou não, que o vai salvar.

 


[1] Uma crise provocada, diga-se, pelo governo conservador de direita, que seguiu conselhos de “especialistas”, como a Goldman Sachs, para esconder o seu colossal défice.

About Rodrigo Vaz

My life is pretty much like my hair. It's a mess and I know it could be a lot better. I just don't know how. Ver todos os artigos de Rodrigo Vaz

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