Brandura, curiosa expressão

Já dizia – cantava, aliás – Chico Buarque: “aqui na Terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito show e rock n roll”. Será assim no Brasil, mas também em Portugal. O futebol mantém-se na equação; quanto ao samba e ao show, como somos um país de bons e brandos costumes, temos Fátima. O rock n roll é substituído pelo fado: o resultado dessa equação é este “país à beira-mar plantado”, já dizia o outro. Bem-vindos a Portugal. Realmente, Portugal e Brasil são países-irmãos, não haja dúvida*.

Fado, futebol e Fátima. A vida do português gira à volta disso. Enquanto houver um naco de pão e vinho, o Benfica a jogar e alguém a apregoar o nosso miserável destino com uma guitarra – uma guitarra só nossa, ao menos isso – a acompanhar, estamos bem. E pouco interessa como vivemos. Sim, parece que temos políticos corruptos, desemprego em massa, condições de vida que estagnaram e agora vão ficar ainda piores. Mas o Benfica vende o Coentrão, passamos a comprar um vinho mais barato…e o fado até ganha mais sentido. Ao limite, afinal ‘a crise’ é sinal de patriotismo.

Parece ser mesmo, a avaliar pela reacção – ou falta dela – dos portugueses. Perante salários congelados, preços a subir, um ‘clube’ de miséria social que não cessa de recrutar mais adeptos à força, o máximo que conseguimos é mobilizar 200000 pessoas – e, o mais preocupante, 200000 pessoas foram uma espécie de marco histórico – para uma amena cavaqueira, num ambiente de quase-festa, Avenida da Liberdade abaixo. Claramente, a luta é alegria. Umas fotos à multidão, uns soundbytes aqui e ali, uns jornalistas-aspirantes-a-psicólogos**, uma dúzia de reportagens individuais para fazer uns artigos mais completos na principal imprensa nacional. Na semana seguinte, assunto arrumado.

O nosso movimento “à rasca”, a única frente espontânea anti-crise que tivemos eclipsou-se quase tão depressa quanto surgiu. As condições que os levam a estar “à rasca” não, infelizmente. Apenas o movimento que por umas horas ganhou corpo (200000 deles, para ser mais preciso). Alternativas de fundo, propostas, não. “Uma lei contra a precariedade”, falou-se. É bonito, concordo. E também estou de acordo como todas as pessoas devem ser boas, saudáveis e que devemos todos ajudar velhinhas a atravessar a rua. Legislemos então também sobre a assistência a velhinhas a atravessar a rua. Tal como estamos todos contra a precariedade, também estamos de acordo sobre isso.

Somos, de facto, um país de brandos costumes. Não há grandes revoltas contra nada. A única ‘arma’ que usamos mais frequentemente é a greve – que se traduz, curiosa mas exactamente, pela ‘não-acção’. Não sabemos lutar pelos direitos que temos. Nem a protestar servimos***. Triste país este, onde até para fazer revoltas precisamos de emigrar.

* O irmão mais novo é que, não tarda, vai começar a pagar a mesada ao mais velho, mas isso é assunto para outra ocasião.
** Com perguntas do tipo “Então os partidos já não respondem aos seus anseios? Não está feliz? Porquê?”, sugiro uma profunda análise em que Freud seja claramente a principal referência bibliográfica.
***A nossa crise é tão profunda que até os movimentos anti-crise estão em crise. Que crise, isto da crise.

About Rodrigo Vaz

My life is pretty much like my hair. It's a mess and I know it could be a lot better. I just don't know how. Ver todos os artigos de Rodrigo Vaz

One response to “Brandura, curiosa expressão

  • Gustavo Gouveia

    Acho piada referires o patriotismo da crise. De cada vez que referi publicamente que a minha situação de vida a curto médio prazo nada me preocupava, as pessoas perguntaram-me com desdém ‘Porquê, não é Português?’ como se tivesse de sucumbir às dificuldades em solidariedade para com os meus compatriotas. Felizmente a vida ainda me corre muito bem, enfim, e aos outros também se medirmos de acordo com a excente de que as festividades sasonais típicas desta altura do ano foram alvo.

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