Sobre Maio*

Maio foi, seguramente, uma das revoluções mais marcantes do século XX. Também pelo que foi, mas também – e sobretudo – pelo que não foi.

Não houve sangue – e isso fica sempre bem. Houve, claro, bastante agitação nas ruas, houve barricadas, faculdades encerradas. França quase “fechou” durante esse mês. Numa sociedade tão profundamente conservadora quanto era a francesa nos anos 60 (ou a generalidade das sociedades até então), havia a necessidade de reivindicar tudo. E nada também.

Maio também não foi, como obviamente não podia ser, a defesa de uma sociedade livre e ordeira anglo-saxónica. Maio foi, isso sim, uma busca (abstracta, como não poderia deixar de ser) por soluções novas. Soluções novas à esquerda, numa altura em que a esquerda apresentava, curiosamente, um espectro muito semelhante ao de hoje: um comunismo (agora ex-)estalinista que já não era “revolucionário” (prova disso foi a retração do PC francês em Maio. Hoje, a adesão sem um pingo de espontaneidade do PC português, um dos poucos ainda ortodoxos, a manifestações por eles não organizadas), e um centro-centro-centro-esquerda. Restava uma miscelânea de esquerdas, do maoísmo ao trotskismo ou – vamos considerar esquerda – o situacionismo. Foi aí que Maio se integrou. Quarenta anos antes de Obama, a Europa já tinha a sua versão esquerdista de “Yes We Can” – o “é proibido proibir”.

Hoje, o espírito de Maio, o espírito de 1968, o espírito do “é proibido proibir” enfrenta uma considerável resistência (talvez maior que nunca) na Europa. Sarkozy quis “liquidar a herança” de 1968 e, qualquer que seja o rumo que a França e a Europa tomem nos próximos anos, não deixarão de estar longe de Maio. Hoje, é proibido não proibir…outra vez.

Mas o legado de Maio não é mesurável. Sim, o salário mínimo subiu 30% e tudo o mais, mas Maio não é mesurável. Maio foi, à falta de melhor expressão, um grito indiscriminado e apenas vagamente dirigido a De Gaulle (é preciso não esquecer que nas eleições convocadas logo a seguir por De Gaulle, o seu partido reforçou a sua posição no Parlamento; mas na verdade, como Cohn-Bendit disse, quem saiu à rua em Maio estava  “a trabalhar para Mitterrand…”). Maio foi, no fundo, uma revolta contra nada em concreto. Maio foi, precisamente, contra o concreto.

* sim, Maio. A esquerda trata as Revoluções pelo primeiro nome.

About Rodrigo Vaz

My life is pretty much like my hair. It's a mess and I know it could be a lot better. I just don't know how. Ver todos os artigos de Rodrigo Vaz

3 responses to “Sobre Maio*

  • Bruno

    Muito bom post, Rodrigo.

    Maio foi um grito de revolução contra más condições sociais. Uma forma de propagar (algumas) ideologias, mas lá bem no fundo, de propagar sobretudo um sentimento de união contra um inimigo público – De Gaulle. No entanto, após toda a contestação organizada e violenta (sim, houve sangue, e não foi pouco http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcS2l269T0MwGVlIYH5cgtSi-FRtF0_C0NpTmWLJAScf4-jIhMBS&t=1), os resultados práticos foram muito poucos. Das poucas coisas que restaram foi o legado de “luta” que continua a inspirar tantos outros movimentos de reivindicação pelo mundo fora.

    Mas, efectivamente, muitos têm memória curta. A crise do Estado Social está gravada a negrito por baixo de qualquer momento histórico semelhante e, dessa forma, as esquerdas acabam por perder força ao usá-los nos seus discursos de vira-o-disco-e-toca-o-mesmo. Portanto, aquele mito de que em alturas de grave recessão económica os povos tendem a render-se a soluções de Welfare State tendencialmente de esquerda, já foi desmentido pelos MythBusters da direita. Apertar o cinto é que está a dar, e assim, proíbe-se o que se tem de proibir.

    E com escândalos sexuais metidos ao barulho, esta esquerda nunca se levantará, pelo menos, nos próximos 10 ou 20 anos. E, enquanto isto acontece, a fronteira de debate move-se uns largos quilómetros, opondo agora Sarkozy a Le Penn. A esquerda nunca enfrentou uma crise ideológica tão grande, mas parece-me que a história fará das suas num futuro a médio prazo.

  • José Couto

    Muito Bom, Rodrigo! Gostei muito.
    E gostei muito também do seu comentário, Bruno.
    Só queria deixar uma nota… não para discordar, mas tão só para acrescentar…
    Não é por acaso que Sarkozy fez no seu último comício ante de ganhar as eleições presidenciais uma alusão ao Maio de 68, culpando-o de todos os males que tem sofrido a França. De facto, o Maio de 68 mudou o rosto da França sob todos dos pontos de vista…
    Mas, como sabemos, não foi só da França!
    Não acho que os resultados práticos do Maio de 68 tenham sido poucos, caro Bruno. Para além do inestimável valor do legado de “luta” de que falas, bem como o crescimento do salário mínimo e outros direitos sociais de que fala o Rodrigo, é sobretudo ao nível dos costumes que a ruptura é colossal. O direito ao divórcio, o direito à contracepção e ao planeamento familiar, a descriminalização do aborto, o reconhecimento jurídico de uniões de facto, a exigência de efectiva igualdade entre homens e mulheres, os direitos gays, as modernas abordagens da problemática da droga e das dependências, a ética ambiental… são, se quiser, produtos directos da revolução moral operada em 68. Antes disto, até as esquerdas mais radicais tinham algum pudor em assumir posições claras sobre muitos destes temas (salvo honrosas excepções – sempre as há, felizmente!). É, sobretudo, esta parte do Maio de 68 (a lavagem de mentes) que criou um processo europeu de tal maneira catalizador que nunca mais ninguém o conseguiu travar. A importância do Maio 68 foi o que fez na cabeça das pessoas!!! Nunca mais se escreveu como se escrevia, nunca mais se fez filmes como se fazia, nunca mais se fez música como se fazia, nunca mais se fez televisão como se fazia…
    Tudo isto obrigou a uma mudança extraordinária na esquerda e mesmo na direita europeias. A esquerda saiu do apartheid da “luta de classes” e adoptou outras causas de “luta”; a direita ficou claramente mais liberal e cada vez menos conservadora.
    A revolução cultural foi, portanto, imensíssima (perdoem-me o superlativo).
    Quanto ao que se passa na esquerda francesa de hoje… é uma tristeza… Nem vou comentar para não deprimir… sobretudo porque é ali que, desde 68, se dita o que é a esquerda europeia… Enfim… uma tristeza.
    Um abraço aos dois,
    José Couto

  • In Maymorium « Instituto Público

    […] Quando o ano passado escrevi sobre o Maio de 1968 e disse que não tinha havido sangue, imediatamente recebi dois comentários a […]

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