Da obstinação com a eficiência

Que sociedade temos? Será que a globalização nos aproximou? Mais: será que todo este fenómeno de “encurtamento” do mundo leva a que estejamos mais próximos de povos distantes ou mais distantes daqueles que nos são próximos? Ou acontecerão as duas coisas em simultâneo? Quantas vezes não ignoramos o que se passa mesmo ao nosso lado só para vermos o que se passa no outro lado do mundo? Mais ainda: não estamos nós atraídos pela forma e a desprezar o conteúdo? Porque é cool fazermos algumas coisas, fazemo-las. Mesmo que elas não contribuam em nada para a nossa felicidade. Pior, mesmo que sejam más escolhas para nós, mesmo que choquem com os nossos interesses.

A vida nas cidades de hoje é tramada. Mais que o trabalho que poderemos (ou não…) ter, dificilmente em mais alguma época da história tivemos de obedecer a um número tão grande de proformas. Hoje, influenciados por sabe-se-lá-o-quê-mais-o-marketing, o que é cool é obrigatório e o que é obrigatório tem, por norma, de ser cool.

O homem de hoje em dia é-nos apresentado como um ser quase imortal e omnipotente. Este quase-deus, por mais tarde que se tenha deitado na noite anterior (preferencialmente não antes das 3/4, porque além do mais é um grande ser social), levanta-se às 7 da manhã sorridente, sem olheiras e pronto a ir sorridente para o duche. Toma depois um pequeno-almoço leve e muito rápido e às 8 já está a conduzir, de fato e gravata, o seu carro muito cool comprado a prestações durante 10 anos. Segue para o seu admirável emprego novo (e precário), a tentar impingir cartões de crédito ruinosos a quem passa num centro comercial. Talvez daqui a uns 10 anos o curso superior em Economia comece realmente a ser preciso. Mas bem bom que o terminou, senão estava a vender hambúrgueres no McDonalds.

No trabalho, o admirável homem novo tem de executar pelo menos 6 tarefas ao mesmo tempo – o multitasking é uma qualidade imprescindível.

No meio desta obstinação pela eficiência, desta paranoia com a rentabilidade, haveremos de perder o que nos torna humanos. Depois de falarmos todos inglês, comermos os mesmos hambúrgueres, beber as mesmas coca-colas e de vivermos todos num prédio ultra-moderno e quadrado nos subúrbios de uma qualquer cidade, bem poderemos vestir 7 biliões dos autómatos que já somos e, confortavelmente – como não? – desparecer. Que diferença fará?

Estranha forma de escravização, esta.

About Rodrigo Vaz

My life is pretty much like my hair. It's a mess and I know it could be a lot better. I just don't know how. Ver todos os artigos de Rodrigo Vaz

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