Manifestação de Uma Geração Rasca

Eu sei que o Pedro já escreveu sobre isto, mas não podia deixar de ficar calado em relação a esta maravilhosa manifestação que, como muitos dizem, “relembra o que Abril nos deu”. Ironias à parte, considero que tudo isto é uma pobre tentativa de tentar resolver o panorama precário nacional.

“Mas um movimento jovem a lutar pela suas condições de vida num cenário democrático, como é pode ser uma tentativa superficial?!?!”, ora o problema aqui é o simples facto de se tratar apenas de um conjunto de pessoas exaltadas que querem um tubo de escape para as suas frustrações, um modo de passar tempo ou ainda para uns um belo espaço de engate, pois o que sempre aproximou os homens, especialmente os portugueses, foi reclamarem em conjunto. Há ainda aqueles, infelizmente muitos, que ainda têm um visão pseudo-idealista que tudo irá melhorar depois disto. Posso estar enganado, pois estas coisas trazem sempre surpresas, bastava haver um mártir que já se tornava mito fundador da Nação, nesta caso moderna (que ainda está para surgir), e de certo que mudava qualquer coisa, mas uma manifestação cujo o mero objectivo é demonstrar descontentamento, considero pouco eficaz.

Ora observamos em concreto as ironias que o próprio “manifesto” deste movimento apresenta. Referem que a inércia demonstrada pelos jovens irá ter como consequência, e cito: “
a) Defrauda-se o presente, por não termos a oportunidade de concretizar o nosso potencial, bloqueando a melhoria das condições económicas e sociais do país. Desperdiçam-se as aspirações de toda uma geração, que não pode prosperar.”

Ora é verdade que as condições para realizarmos o nosso potencial não são as melhores, mas a verdade é que todos querem começar “de cima”, como referiu o Pedro, e partilho a opinião, não teria vergonha nenhuma de ter um emprego considerado “menor”, como varrer ruas, ou trabalhar nas obras, se fosse a única hipótese de me sustentar. A realidade é que a grande maioria dos jovens, especialmente os licenciados, recusa-se e demonstra uma gigantesca indignação, em parte justificada, por ter de começar a trabalhar nesse tipo de empregos que pouco ao nada têm a ver com a área em que se especializaram. No entanto, em vez de tentarem dar o exemplo e trabalharem, colateralmente tentando encontrar hipóteses para melhorar a sua situação, estão sempre prontos para fazer uns biscates, conseguir o fundo de desemprego e falar sobre a “tirania capitalista” enquanto bebem um copo com os amigos com o dinheiro de que trabalha. Quanto à questão do impensável de se ter uma licenciatura e ter um trabalho que não corresponde quer em termos da área de especialização ou da qualidade na remuneração, eu concordo plenamente que seria muito melhor e mais justo trabalhar na área que gostamos a receber bem, no entanto, acho que reflecte a verdadeira geração “rasca” com que nos deparamos, afirmar que um povo sacrifica-se a estudar durante anos e anos para depois “ser escravo” como afirmam os Deolinda, já pais de uma geração, demonstra que cada vez menos o conhecimento é tido em boa conta e como algo que nos preenche. Claro que não saber sem aplicar de forma útil não nos alimenta ao final do mês, mas há que haver o equilíbrio entre utilitarismo e saber porque nos enriquece como seres humanos. Para além do mais, o desemprego hoje em dia é em grande parte tecnológico e tendo em conta o grau de dificuldade cada vez menor das licenciaturas e a quantidade de licenciados no mercado de trabalho, é normal que tal não constitua uma vantagem acima da maioria no mercado de trabalho. Ainda refiro que, em qualquer país desenvolvido, se bem que com a diferença de inicialmente haver um maior apoio do Estado, a grande maioria dos cidadãos, especialmente os jovens, está mais que habituado a uma rotatividade laboral constante, verdade que não ficam anos no desemprego, mas há por aqui muita gente que entra em pânico porque não fica efectivo no primeiro ou segundo emprego.

“b) Insulta-se o passado, porque as gerações anteriores trabalharam pelo nosso acesso à educação, pela nossa segurança, pelos nossos direitos laborais e pela nossa liberdade. Desperdiçam-se décadas de esforço, investimento e dedicação.”

Esta para mim é sem dúvida a mais irónica de todas. Sem duvida que seduz muitos com revivalismos estupefacientes daqueles bons tempos do 25 de Abril (ninguem se lembra é do PREC) , em que não existia REMAX pois conseguir habitação funcionava numa espécie de regime self-service, num verdadeiro buffet comunista de saneamentos  fabris e empresariais e colectivizações agrárias. Segue-se uns 20 anos de uma sociedade que considera que ter liberdade é ser libertino e de mais um “ouro do Brasil” com os fundos da União Europeia, tão bem aproveitados pelos Portugueses, gasto em bens privados de uma vasta massa de “investidores” que defraudaram o Estado Português. Este último deixou-nos um legado de liceus públicos e especialmente universidade, repletos de professores frustrados que especialmente no ensino superior, que abusam dos alunos (isto quando comparecem ás aulas) e quanto à segurança, obrigado Dr. António Guterres por ter aberto as fronteiras à imigração desenfreada e não os ter integrado nem dado condições, criando uma verdadeira explosão de criminalidade nas grandes regiões urbanas a partir dos anos 90.

Não se tratam de décadas de esforço nem de dedicação, mas sim de medidas que apenas remediam um enorme buraco de uma ditadura, fruto de uma população viciada e de um Estado incompetente e corrupto.

“c) Hipoteca-se o futuro, que se vislumbra sem educação de qualidade para todos e sem reformas justas para aqueles que trabalham toda a vida. Desperdiçam-se os recursos e competências que poderiam levar o país ao sucesso económico.”

Quanto a isto desafio-vos, sinceramente, a fazer inquéritos a amigos família, a abrir um livro de história, a consultar jornais e averiguar a realidade. Acho injusto muitas pessoas que se esforçaram a vida toda terem reformas miseráveis, mas se esta situação se proporciona é porque, em parte,  milhares de pessoas, no cenário caótico pós-25 de Abril não contribuíram e estão a receber sem nada ter dado. Agrava-se ainda a situação com a massa crescente de desempregados, muitos eles jovens não “à rasca” mas sim “rasca” que preferem ficar sentados e não fazer nada do que irem trabalhar, porque alegam receber o mesmo se ficarem em casa.

Acho a iniciativa de nos manifestarmos contra a situação verdadeiramente vergonhosa que se está a passar em Portugal, onde as provas de corrupção estão à nossa frente e nada fazemos para por fim a esta piada de mau gosto. No entanto, considero que esta manifestação não demonstra nenhuma proposta concreta num documento escrito ao governo para melhorar a situação de precariedade, nem possui uma massa convincente nem bagagem suficiente para constituir sequer uma “ameaça” aos quadros do governo. Experimentem fazer o “movimento nacional do voto branco” que sou o primeiro a ir ás urnas, mas uma marcha pelas ruas do Porto e de Lisboa a reforçar o que já a grande maioria sabe… enfim. Isto é ainda, ao contrário do que muitos pensam, um sinal de teoria, a acção espero eu ainda está para vir.

PS: Independentemente de como isto acabar, quem se vai estar a rir são os Deolinda, pela a quantidade de discos vendidos que esta palhaçada lhes vai render. Deve estar a pensar a Ana Bacalhau, a vocalista, “que parva eu sou… por não me ter lembrado mais cedo de lucrar com as susceptibilidades da juventude portuguesa, haha”


2 responses to “Manifestação de Uma Geração Rasca

  • ARivera

    Não posso concordar que a a manifestação da geração à rasca tenha sido uma palhaçada. Sim, neste momento não faz sentido uma manifestação “apolítica”, não faz. De facto, foi um escape inconsequente para muitas frustrações, foi sim. Parece-me também que não é por aí que se vai construir seja lá o que for.
    Mas e quê? Milhares de portugueses, povo amorfo e desmobilizado já faz tempo, saírem à rua para mostrar descontentamento (mais que justificado) torna-se uma palhaçada a que respeito?
    Parece-me que foi um grande momento de união, palavra que já nem sentido tem, gasta e corrompida pelos interesses instalados.
    E por isto, por ter conseguido mexer com corpos flácidos e mentes entorpecidas, tê-los posto na rua ao Sábado, penso que a manifestação de dia 12 é sintomática de uma doença muito grave. Ela já lá estava, é certo, mas parece-me que agora, aos poucos, há-de acordar a consciência de uma nação.
    A partir daqui, que se comece a organizar a malta do particular para o geral, partilhe-se ideias concretas e, de forma coerente, faça-se luz sobre a raiz das questões.

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