Cronologia pseudo-auto-biográfica aos meus futuros netos sobre os anos 90 e “o meu tempo” – ou sentença de morte saudosista do ocidente – ou um título demasiado grande

Ah, os bons anos 90. Por muito que a música tenha ficado pior, que a geração fosse fútil ou até “rasca”…sentia que não havia preocupações. Talvez por coincidir com a idade da minha infância: cresci a ver o Schumacher a ganhar títulos atrás de títulos na Fórmula 1, aos domingos de manhã, na RTP1. Das publicidades da McDonalds, sítio esse que nunca fui por morar nos Açores (e a McDonalds só lá chegou na última semana de 2006 – sinais de crescimento ou de acrítica?). De ver dinheiro a ser distribuído por todos, porque o havia, vinha esbanjado de Bruxelas.

Cresci a ver políticos como Guterres, Aznar, Chirac, Blair, Schroeder, Clinton e tantos outros. Por muito que não fossem figuras míticas nem fontes inesgotáveis de carisma, eram – ou aparentavam ser, sempre importante no exercício da politica – indivíduos sólidos e coerentes com as suas convicções. O Ocidente crescia à velocidade que queria, ou pelo menos à velocidade suficiente para passar a década inteira praticamente sem falar em crise. As potências emergentes não eram ainda uma ameaça ao nosso crescimento. Havia guerras civis um pouco por toda a África, até na Europa Central – e nós não queríamos saber.

Hoje, já muito mudou. A China é já um vencedor antecipado desta corrida que tem como meta um novo paradigma nos campos social, económico e politico. Várias das ditas “potências emergentes” ocupam os lugares a seguir: Índia, Brasil, Rússia, Indonésia… Dentro de 20 anos, vai ser visível que aquele mundo para nós confortável com os EUA à cabeça e a Europa por arrasto acabou logo à viragem do século. Um Presidente errado durante 8 anos e a sentença de morte da ordem mundial pós-Guerra Fria estava assinada.

Esta questão é complexa e, como todas as questões complexas, mais importante que tentar obter respostas, é procurar as perguntas: antes de definirmos os objectivos, decidamos os princípios e os meios para lá chegar. Como responderá a Europa aos desafios lançados pelos novos mercados, baseados em fracas ou inexistentes leis laborais? É através da baixa de salários e de regalias sociais que as populações conhecerão uma melhoria do seu nível de vida, uma meta que, quando atingida, se quer sempre revista em alta? É enfraquecendo a coesão entre os Estados-membros e enveredando pelo nacionalismo e proteccionismo que essas metas serão atingidas?

As respostas a estas perguntas definirão o rumo da União Europeia nos próximos anos – seguramente durante mais que uma década.

 

About Rodrigo Vaz

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2 responses to “Cronologia pseudo-auto-biográfica aos meus futuros netos sobre os anos 90 e “o meu tempo” – ou sentença de morte saudosista do ocidente – ou um título demasiado grande

  • indulgencias

    Um pouco dramático é verdade, mas considero que se criarmos uma terceira hipótese aos clássicos “Federação Europeia” ou “Fragmentação Europeia”, acabamos por nos tornar cada vez mais irrelevantes no cenário internacional, isto daqui a umas décadas.

    Será que os meus netos vão sonhar em entrar nas melhores universidades do mundo… em Nova Deli e Beijing?

    • Rodrigo Vaz

      Um *pouco* dramático, sim. Mas concordo contigo: quanto ao futuro da UE, ‘ou vai, ou racha’. Não que provérbios sejam fonte de informação por norma válida, mas neste é possível estabelecer uma analogia bastante imediata: de facto, ‘ou vai’ e a Europa cria finalmente um projecto comum com pés e cabeça, mas sobretudo, com um tronco (que é sobretudo o que falta), ‘ou racha’, e voltamos à Europa pré-1957, com cada estado por si.

      Mas quanto às melhores universidades do mundo estarem, por exemplo, em Nova Deli e Beijing, nem duvides. As universidades chinesas, desde os últimos anos, são as que produzem o maior número de relatórios científicos e papers por ‘cabeça’, e como é sabido as universidades indianas (bem, nem todas, mas algumas) estão entre as melhores do mundo nas áreas da investigação tecnológica.

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