Raiva

Não sei se alguém já terá visto esta notícia que saiu no Público e que aparentemente veio da TVI sobre uma ambulância ter sido obrigada a sair do sítio onde estava com sinalização de urgência para o automóvel que ia buscar um Ministro pudesse passar.

Não quero discutir se o agente da PSP fez bem em mandar a ambulância sair do sítio (por razões de segurança até compreendo) nem quero entreter a noção que os políticos acham-se superiores ao “resto de nós” (apesar de o achar, como está num post meu anterior, não me parece que seja esse o caso aqui – quanto muito a deferência de alguém por um ministro).

O que eu quero comentar é os comentários (comentar os comentários…) que as pessoas foram deixando à notícia no site do Público. Gostaria especialmente de focar que os comentários com mais altas pontuações dadas pelos restantes leitores têm incitações à revolução e, inclusivamente, ao fuzilamento “em praça pública” dos nossos governantes.

Não posso de maneira nenhuma concordar com o uso de violência, antes de mais. É, no entanto, impressionante a quantidade de frustração e a mais simples e crua raiva que hoje grassa pelo nosso País. As pessoas estão fartas, completamente fartas de tudo o que (não) tem acontecido em Portugal.

Se pessoas numa sociedade democrática começam a falar de revolução e “com muito sangue e sede de Justiça”, é porque as coisas estão rapidamente a chegar a um ponto de não retorno. Dir-me-ão que uma revolução em Portugal será quase impossível – a UE e a NATO nunca deixariam e os nossos problemas não são assim tão graves comparado com os de muitos outros países.

É verdade, mas desde quando é que a racionalidade costuma entrar nas revoluções? Vejam-se os casos actuais e ver-se-á que foi um simples vendedor de rua imolar-se para despoletar toda a raiva e todas as frustrações contidas. O caso de Portugal começa rapidamente a consolidar-se numa situação em que bastará uma faísca para as pessoas começarem a pensar em explodir com tudo.

Aliás, lembro-me de quando tive que ir à Base Naval de Lisboa, no Alfeite, por ocasião do meu Dia da Defesa Nacional, no longínquo ano de 2004, um Tenente do Exército já dizia que a partir do momento em que deixassem de ser pagos revoltavam-se (noutras palavras, mas o sentido era claramente este).

Uma pessoa fica a pensar – será que haveria muita gente a defender o regime se a alternativa fosse claramente construída como democrática mas anti-corrupção e anti-elites? Espero não vir a saber tão cedo mas se há algo que a História nos ensina é que nenhum regime é eterno.

Isto tudo para dizer que se calhar um “Dia de Raiva” à la Médio Oriente se calhar fazia maravilhas cá no nosso jardim.

 

Pedro Costa


One response to “Raiva

  • Bruno Moreira

    É verdade, a descrença na classe política tem destas coisas…mas é importante que nos conservemos sóbrios e racionais o suficiente para não incendiar um país que já pouco ou nada tem de matéria inflamável.

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