Aprender a técnica na era da religião

As recentes ondas de protestos populares e de sublevação de massas no Médio Oriente e no mundo árabe (erroneamente apelidadas de “revoluções”, noção que desapareceria com um mínimo de atenção à composição actual dos governos tunisino e egípcio) têm sido recebidas, geralmente, por duas posições polarizadas: a opinião pública mais naive que acredita cegamente na universalidade dos valores democráticos e no sucesso dos protestos em estabelecer uma democracia equiparada às ocidentais, e os cépticos por excelência que alertam para a iminência da ascensão do fundamentalismo islâmico na região, com o consequente prejuízo dos interesses europeus e norte-americanos. É premente, no entanto, olhar para a situação com o máximo de frieza e objectividade que esta exige. Na Tunísia, onde o presidente Ben Ali foi deposto a 14 de Janeiro, o líder do executivo dá pelo nome de Mohamed Ghannouchi, que está no mesmo cargo desde Novembro de 1999, portanto com o consentimento e apoio do antigo ditador. A situação é análoga no Egipto, onde Ahmed Shafiq, nomeado por Mubarak numa primeira resposta aos protestos que abalaram o país, mantém-se como primeiro-ministro, enquanto o líder da junta militar é Mohamed Tantawi, ministro da Defesa de longa data.

A lógica conclusão a retirar é que houve uma preocupação das elites em evitar uma situação de vazio de poder que pudesse ser usada por partidos radicais. Aliás, creio que foi essa a principal preocupação dos Estados Unidos na maneira como lidaram com as revoltas: no caso egípcio, forçaram as negociações quando o regime recorria ao engodo dos manifestantes pró-mubarak para eliminar as revoltas (de forma a evitar que este perdesse margem de manobra para uma transição gradual do poder), e quando se tornou visível que os protestos não desapareceriam sem a queda do ditador, apoiaram a solução militar. O mesmo processo está, visivelmente, a ser aplicado no Bahrain, onde o regime optou inicialmente pela repressão, recuando de forma radical para iniciar um diálogo com os opositores (que se saudou, já ontem, pela libertação de mais de duas centenas de presos políticos) que impedirá a queda do poder na “rua”.

Atendendo ao facto que as elites que governam estes países há décadas se mantêm no poder, não há motivos para haver qualquer tipo de preocupação com os acontecimentos recentes. Será feita, sem dúvida, uma “transição”, não sei se mais ou menos democrática, mais turca ou mais birmanesa, mas é certo que a tutela e a presença destas forças não vão deixar de ser sentidas. Serão, provavelmente, eleitos deputados de partidos islâmicos ao parlamento, e haverá maior margem de manobra para estes, todavia sempre na linha do “mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma”. Aliás, fico com a sensação de que as potências ocidentais, nomeadamente os EUA, mantiveram a situação sempre sob controlo, e nunca permitiriam que o processo se desenrolasse de outra forma.

Eliminando assim os riscos de deriva fundamentalista, é preciso responder aos defensores incondicionais da democracia. O demoliberalismo ocidental está, de momento, completamente fora de questão nestes países, e estará provavelmente no futuro próximo. Isso não significa, no entanto, que não se possa evoluir gradualmente em direcção a essa desejável situação, mas apenas a muito longo prazo: a Turquia, o exemplo mais evidente de uma democracia islâmica com sucesso (a Indonésia também o é, mas com características muito diferentes dos países árabes), precisou de 80 anos para criar instituições sólidas que dispensassem a tutela militar sobre o regime. De momento, os estados árabes necessitam de estabilidade duradoura (algo ameaçado pelos recentes eventos na Líbia), de forma a desenvolver gradualmente uma sociedade civil capaz de ir assumindo a liderança do processo político. A palavra-chave continua a ser “gradualmente”. Esta não deixa de ser, contudo, a opção mais plausível e realista de um futuro bem-sucedido no mundo árabe; o falhanço do regime em desenvolver uma sociedade civil e instituições seculares seria catastrófico a longo prazo.

Em suma, a situação nos países árabes não é susceptível a análises superficiais e ideológicas, constituindo-se como local por excelência da realpolitik. Não iremos ter, previsivelmente, nem democracias parlamentares nem repúblicas islâmicas no curto prazo, o que não é motivo para não estar atento à evolução da situação. A desestabilização da região é real, havendo a possibilidade de surgir um movimento que altere o panorama previsto. Se tudo se desenvolver como aparenta, no entanto, a verdadeira transição, a ocorrer, será ao longo de um extenso período de tempo e não no momento das próximas eleições, daqui a seis meses no Egipto. A melhor esperança para os árabes, e para os europeus, é que Mohamed Bouazizi seja o Mustafa Kemal Ataturk do século XXI.

Mário Rebelo
24-02-2011

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3 responses to “Aprender a técnica na era da religião

  • Rodrigo Vaz

    Bom título, bom texto, excelente entrada! Bem-vindo!😉

  • mmfr

    Excelente texto; só gostava de ter tantas certezas como o autor que dá por eliminada a deriva fundamentalista. Talvez por deficiente informação, parece-me que a franja da sociedade que neste momento lidera as convulsões nos países árabes será incapaz de controlar a matriz fundamentalista que liga o Islão à política. Até porque as instituições e a ideologia dominantes estão desligadas da «ideia democrática» cuja vivência nada diz à população. Assim, passado o período «romântico» que animou as hostes revoltosas, quando a poeira pousar, chegará a «hora da verdade»: a hora da concepção islâmica do Estado. É a minha visão, mas gostaria de «ouvir» a opinião do autor sobre o assunto.

  • Mário Rebelo

    Agradeço o feedback deixado pelo Rodrigo e pelo mmfr. Respondendo ao comentário deste último utilizador, dou-lhe toda a razão quando afirma que “…as instituições e a ideologia dominantes estão desligadas da «ideia democrática»…”, mas isso não leva, necessariamente, ao estabelecimento de um estado teocrático; pelo contrário, como temos observado desde a sua independência, os regimes autoritários árabes não deram espaço à manifestação de tendências islamistas. As instituições podem não ser democráticas, mas certamente que são seculares. Considero, inclusive, que a democracia acarretaria o maior risco de estabelecimento de uma República Islâmica, e dado que as elites se mantêm no poder tanto na Tunísia como no Egipto, podemos concluir que não vão mudar o fundamental da linha de acção seguida até aqui. Por último, gostaria de salientar que foram as camadas populacionais mais jovens que lideraram as revoltas, com um nível de educação e qualificação pouco distante do ocidental, que exprimiram já a intenção de não ceder às tentações fundamentalistas (http://www.publico.pt/Mundo/tunisia-centenas-de-pessoas-manifestamse-por-um-pais-laico_1481112 ; http://noticias.terra.com.br/noticias/0,,OI4926300-EI188,00-Revolta+do+Egito+e+laica+e+nao+afetara+cristaos+diz+especialista.html).

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