O Inverno dos Povos ou vários PREC’s árabes?

Sendo o primeiro post que faço aqui no Politikon Zuon, gostaria de começar com algo sobre a situação política internacional que, parece-me, é bem mais interessante do que a depressão colectiva interna.

No momento em que escrevo, a Tunísia está já envolvida numa espécie de PREC, o Egipto começa a estar, e vários outros países, nomeadamente a Líbia, Iémen, Marrocos, Argélia, Irão e até China estão a ter protestos constantes e cada vez mais assertivos. O caso da Líbia é particularmente grave com várias organizações não-governamentais a garantirem que há tropas e mercenários a atacar os protestantes à rajada de metralhadora e com os mortos já a passarem as três centenas.

Eu sou uma espécie rara no sentido em que sou um idealista céptico. Eu *quero* que estas revoluções (porque, mais que revoltas, é isso que elas são) consigam ter sucesso – se estivesse no lugar deles ter-me-ia juntado aos protestos desde o primeiro dia. Mas não consigo deixar de pensar que as coisas não vão acabar bem.

Compreendam-me, não estou a dizer que, numa fase inicial, vários ditadores não serão depostos e que as revoluções vão falhar. Como se tem visto, a espiral de violência e recriminação tem sido brilhantemente aproveitada pelos protestantes e tem tido bastante sucesso – qualquer acto dos vários governos tem inflamado a situação e feito com que, no fim, os protestantes conseguissem o que queriam. Mas será que vão ver tudo realizado a médio e longo prazo?

O título deste post não é escolhido ao acaso ou para soar bem. Em 1848 tivemos a Primavera dos Povos, em que a Europa foi abalada por tentativas populares revolucionárias em vários países. As motivações eram similares às de hoje e o meu receio é que os resultados acabem por ser os mesmos. Para quem desconhece os acontecimentos de então, basta resumir numa palavra: falhanço. As revoluções no médio-prazo falharam devido à “reacção” que rapidamente se aproveitou das fracturas nos movimentos revolucionários e da falta de sucesso em corrigir os problemas rapidamente.

Se virmos o que está a acontecer no Egipto e na Tunísia, não há maneira de ignorar que as coisas estão muito periclitantes, com manifestações quase diárias, recriminações contra quem se diz ser contra a revolução (não usei o acrónimo PREC há pouco também por acaso, é que parece mesmo!) e um (res)surgimento de movimentos mais fundamentalistas (contra os direitos das mulheres na Tunísia, por exemplo).

O caos é quase palpável e já há vozes a alertar para o risco tremendo que se está a correr. Enquanto que a anarquia é uma real possibilidade, o pior talvez seja as consequência desta – normalmente há uma intervenção militar para impor (a) ordem e, assim, uma ditadura. O caso da Líbia será ainda mais problemático se as instituições revolucionárias caírem. É que a própria estrutura do Estado não é, de todo, centralizada – tudo está assente nas tribos e nas suas relações. Surpreendentemente para um ocidental, até as próprias forças armadas estão divididas por relações de lealdade tribal. Se deixarem de existir os únicos elos comuns a todo o país (nomeadamente, o Coronel Kadafi e o Conselho da Revolução – sim, é mesmo este o nome, eu disse que ter falado em PREC não era acaso…) a Líbia corre o risco bastante sério de se desintegrar. O que, sejamos claros, não é necessariamente mau – o problema são as possíveis consequências, para os líbios, como para os países vizinhos e, também, Europa.

Isto tudo para dizer que não basta retirar os ditadores dos respectivos poleiros – as revoluções são muito mais do que isso e só agora começaram. Espero que, ao contrário de 1848, os países em causa sejam capazes de resistir aos problemas e que estejamos a ver novos PREC’s a acontecerem ao mesmo tempo e com resultados semelhantes. Vai haver excessos de parte a parte, de certeza – nós tivemos um Verão Quente, eles são capazes de o ter também. O problema é que nós só escapámos de uma guerra civil e de pelo menos duas tentativas de golpes por muito pouco – só espero que os tunisinos, egípcios e todos os outros que consigam ultrapassar a fase inicial tenham igual sorte.

 

Pedro Costa


One response to “O Inverno dos Povos ou vários PREC’s árabes?

  • Pedro da Silva

    Hmmm… liked it, and totally agree.
    É uma grande verdade que não basta retirar os ditadores e depois deitarmos-nos “à sombra da bananeira”… é que pode acontecer de tudo! Se não houverem soluções imediatas, os resultados são, por exemplo, guerras civis tremendamente violentas e tecnicamente sem razão nenhuma, ou o afastamento de um ditador para colocar lá outro. E como dizes também, estas revoluções (como as de 1848) desejam democracia… mas quem diz que é isso que vai acontecer? O exemplo da Tunísia é bom, e obviamente as ligações tribais na Líbia… O Khaddafi, por pior que seja, é a única coisa a segurar a Líbia. Espero apenas que soluções sejam encontradas e que os povos em pé de guerra saibam assegurar o seu futuro.

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