Consciência Política e Jotas

Na grande demanda pela consciencialização política das pessoas, é urgente abrirmos os olhos a este complexo processo e ao perigo que as máquinas partidárias tendencialmente representam ao simplificá-lo. Estou claramente a referir-me aos mais jovens, que entregam a sua “virgindade” política aos influxos que recebem de todo o ambiente que os rodeia: pais, amigos, escola, televisão (esse monstro sedento de audiências), internet, jornais, livros…não foi à toa que meti os livros em último lugar, mas esse é um assunto que dará pano para mangas num outro post, num dia quiçá mais produtivo.

Efectivamente, faz parte da experiência humana depararmo-nos com uma série de fontes que nos influenciarão nas nossas escolhas políticas. Este é um processo que demora meses (arrisco-me a dizer anos) e que apenas deve ser fruto das nossas opiniões, formuladas independente e conscientemente, como bagagem do amadurecimento enquanto politikon zuon. Porém, é neste panorama que existem as Jotas, movimentos partidários de integração dos mais jovens nas fileiras políticas, mobilizando milhares de almas penadas em prol de uma causa. A grande questão será: o que leva os mais jovens a filiar-se nestas organizações?

É de louvar a consciência política de que grande parte dos jovens carece persistir dentro destes meios, mas não nos deixemos levar pela ingenuidade. As jantaradas, os comícios, os colóquios, o associativismo académico são consequências riquíssimas de formação que as Jotas propõem aos associados/militantes. Mas quantas são as pessoas que apenas ingressam neste meio para obterem algo que não conseguiriam (ou pelo menos que exigiria um pouco mais de trabalho) se estivessem fora dele? Infelizmente, é cada vez mais com um sexto sentido de compadrio que estas faixas etárias se fazem “mergulhar” nas Jotas. Inconscientemente, não têm noção da metamorfose que a sua vida experimenta: o seu corpo é instrumento do partido, a sua voz é instrumento do partido, a sua perseverança é instrumento do partido…apenas as suas ideias não. Entram num modelo caduco de consciencialização política e apenas lhes dão mais força.

É com pesar que concordo com algumas coisas que aqui já foram ditas, nomeadamente o carácter oco e vazio de alguns ideais dos partidos. Uns mais do que outros, todos mostram que não seguem rigorosamente ideologias, mas sim formas de política. O que é mais estranho é, defrontados com este panorama, o que levará aos jovens inscreverem-se nas Jotas. Seria de esperar que fossem estes a procurar as militâncias, mas assistimos silenciosamente ao contrário: muitas Jotas (apoiadas financeiramente pelos partidos) procuram os jovens num determinado momento das suas vidas em que precisem de algum apoio financeiro, como numas eleições para as Associações de Estudantes das suas Escolas Secundárias, por exemplo. E nisto, muitos rapazes e raparigas, sem terem sequer tido tempo para formular qualquer orientação política nas suas vidas, entregam nas mãos das Jotas um impresso simples que para eles ainda pouco significa, mas estatisticamente importantíssimas para os próprios partidos políticos.

Desta forma, muitos dão continuidade a um modelo caduco de fazer política no nosso país. É como tentar remendar um pneu furado vezes sem conta com fita isoladora, independentemente da borracha já praticamente não existir. Já o Tocqueville, no século XIX, nos alertava para a alienação do dever cívico, do exercício da soberania e da falta de consciência política. Mas num mundo onde o dinheiro é um argumento de peso, deparamo-nos com algo, a meu ver, mais grave: a consciencialização política forçada e acelerada que os partidos incutem nas Jotas. E nisto, lamentavelmente, pecam também os próprios indivíduos. Pois para certos e determinados sujeitos, que ainda agora saíram da puberdade, nada para eles é mais bonito que apertar a mão suja de um Primeiro-Ministro.

Bem-vindos ao politikonzuon😉

 

Bruno Moreira


5 responses to “Consciência Política e Jotas

  • Rodrigo Vaz

    “Infelizmente, é cada vez mais com um sexto sentido de compadrio que estas faixas etárias se fazem “mergulhar” nas Jotas. Inconscientemente, não têm noção da metamorfose que a sua vida experimenta: o seu corpo é instrumento do partido, a sua voz é instrumento do partido, a sua perseverança é instrumento do partido…apenas as suas ideias não. Entram num modelo caduco de consciencialização política e apenas lhes dão mais força.” Touché.

    As Jotas são o depurador, o filtro dos partidos. São, por isso mesmo, o elemento mais sujo: não há nenhum critério de selecção. A exigência para se entrar numa jota é a mesma de conseguir um crédito de 500 euros na cetelem. E as ‘campanhas de marketing’ de um lembram as campanhas de outro: são agressivas, apostam na pressão e escondem as ‘letras pequenas’. Isto leva a que o corpo das jotas seja uma massa amorfa, completamente apolítica, incompetente, socio-cancerígena. O clima de mediocridade geral só origina a ascensão de líderes de jotas (salvo raras e mui honrosas excepções) absolutamente execráveis, sem um pingo de ideologia e sem pejo de vergonha. Esse é o primeiro passo da corrida até ao trampolim: daí até a mediatização e consequente entrada no partido dos grandes…lá está, é um pulinho. No tal trampolim.

  • Inês Pinto

    Chamem-me doida mas não consigo deixar de comparar as Juventudes Partidárias às Juventudes Hitlerianas e suas derivadas em país fascistas (e não só).

    Por um lado são coisas diferentes porque enquanto que as Juventudes Hitlerianas apanhavam e moldavam as mentes das pessoas desde uma muito tenra idade (fosse através de hábitos e rotinas, doutrinas fascistas e racistas, moralidade e religião), já as Juvs. Partids. apanham-nos mais crescidos e formados. Mas como já parece ter ficado bem claro, as Juventudes partidárias servem o mesmo propósito a um nível muito mais subliminar e enterrado.
    Quase nos dando a noção de que a ideia É Nossa. Enquanto jovens (des)informados.
    Contudo, não vale a pena repetir as ideias já exploradas no post original.
    Ao lê-lo surgiram-me duas grandes problemáticas, que creio simbióticas à mesma.
    Por um lado, até que ponto podemos crescer e maturar a nível político SEM influências externas. É óbvio que a opinião do meu pai vai influenciar-me, que a ideia que aquele filme que vi quando tinha 15 anos e que me marcou vai preponderar, que aquele livro que li fez tanto sentido que é impossível conceber algo diferente porque de outra forma estaria errada.

    A outra questão é, e falando por experiência pessoal, a maioria das pessoas que conheço em Juventudes Partidárias são bastante desinteressadas pelas mesmas. Renunciando a qualquer tipo de actividade que estas façam e o pior de tudo, sem nada em concreto para dizer, quando confrontadas com os ideais que o facto de se terem filiado numa Juventude Partidária, lhes colou na testa.

    • Bruno Moreira

      @Rodrigo, tens toda a razão, é algo sujo. O objectivo do trampolim acaba por ser a única ideologia presente na mente alegadamente formada em muitos destes indivíduos. Triste realidade que a consciencialização A SÉRIO pode e deve transformar gradualmente.

      @Inês, pessoalmente considero importantíssima a recepção de informação do ambiente que nos rodeia, porque caso não o façamos estamos alienar-nos do nosso dever cívico que é controlar a realidade que directa ou indirectamente nos possa influenciar a nós (e, se quisermos, ao mundo), pois acredito que nem mesmo o Clark Kent conseguiria formular uma opinião política sem receber (boas) influências. No entanto, não é da capacidade de recepção de informação que este problema se apropria, mas sim da capacidade de GESTÃO da mesma. E se não soubermos fazer uma triagem relativamente ponderada das influências que recebermos, quem somos nós e quando raio é que parámos de pensar?
      Por outro lado, é esse o resultado de uma despreocupação do conteúdo em prol da forma de fazer as coisas…e isso pode tornar-se perigoso à medida que esses zombies políticos (porque deixaram de ser animais) se amontoam nas listas das Juventudes, fazendo crescer um cancro (pluri)partidário que já hoje em dia apoia grandes tachos e tachados. Gosto de depreender que não és mais uma maçã podre e que tens uma voz que só tu controlas😉

      Adoro saber que este blog não é um espaço de monólogo esquecido na Web, virei cá mais vezes.

  • Francisco Santos

    Bom texto Bruno, mas achas que realmente são assim tão poucos os que passam para o partido em si? Apesar de forçarem a politização de um individuo não será que conscencializão o mesmo e não os vemos mais tarde noutros partidos ai, talvez, por verdadeira preferência e não porque o amigo lhe pediu? Serão assim tão negativos? Essa “massa amorfa” existe, mas a verdade é que existiria provavelmente uma ainda mais amorfa sem qualquer jota ou qualquêr educação (a)politica

  • Bruno

    Francisco,
    Tens muita razão, mas acho que nos estamos a referir a realidades diferentes:/ a realidade a que te referes é a perfeita, a que funciona conforme as finalidades das Jotas e a que deveria existir em vez da que eu conheço. No entanto, a real realidade chama-me a atenção à dita “educação apolítica” que acontece nas camadas jovens dos partidos: a procura ideológica é substituída pela procura de benefício, a estatística eleitoral é o argumento de peso e, como seres humanos, os filiados têm tendência a aprender com as jogadas (tudo menos políticas) mais eficientes dos mais velhos…e esta realidade leva a uma outra realidade futura que, infelizmente, como podemos ver através desta fantochada eleitoral que está a decorrer, não parece muito mais promissora que a de hoje em dia.
    Contudo, deixa-me congratular-te por seres uma excepção😉 porque é essa tua realidade que deve começar a ser construída desde já. Porque a “massa ainda mais amorfa” existe, mas talvez devesse ser essa que deveria estar a enfileirar os partidos políticos, quem sabe. É na educação partidária que reside o problema, a meu ver. Forçar um modelo estragado de educação é e será sempre comprometer um futuro que, para bem de todos nós, é bom que seja mais sério e íntegro que o presente.

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