A impunidade das elites portuguesas

Depois do post de ontem sobre o mundo árabe, quase que decidi escrever mais sobre a situação internacional actual, nomeadamente sobre o Afeganistão, sobre como a economia japonesa até que não está assim tão mal, especificamente a sua bolsa de valores e sobre um navio de guerra do Irão ter, pela primeira vez desde a Revolução, passado pelo Canal do Suez. Ficarão os três assuntos para outro dia.

Acabei por achar que Armando Vara seria um melhor post porque poderia ventilar todos os meus ódios de estimação internos num local público – dizem que é terapêutico.

A história, calculo eu, já é de todos conhecida: o Sr. Vara achou por bem entrar num centro de saúde, passar à frente de todos os doentes em fila de espera e ir directamente a uma médica a quem deu ordem (a expressão não é minha) para lhe passar um atestado médico. Passado o atestado médico, o Sr. Vara sai do centro de saúde para não mais voltar, deixando os pacientes em espera boquiabertos e furiosos, sendo que pelo menos um decidiu pedir o livro de reclamações.

Ora, muito já foi dito sobre este caso e eu gostaria de acrescentar que isto é sintomático da impunidade que grassa nas elites portuguesas. Quando é que aconteceu um político ou grande empresário ter sido preso em Portugal, seja por que crime for? Podia ser sinal que teríamos a classe política menos corrupta e mais idónea de sempre e de todos os países actualmente… mas muito mais provável é ser sinal que ninguém se atreve a condená-los. Veja-se até o caso de Isaltino Morais: na primeira instância foi condenado até com pena relativamente pesada. Já na segunda instância teve a pena diminuída bastante. E, não quero ser cínico mas, imagino que a decisão do Supremo Tribunal de Justiça vá ou diminuir ou simplesmente absolver este bastião da corrupção.

Veja-se o caso de José Sócrates: havia suspeitas muito graves sobre corrupção da maior seriedade e o que aconteceu? Ele atacou toda a gente dizendo que era uma cabala e que a justiça estava a ser utilizada politicamente. E tudo se calou. É engraçado que são os mesmos argumentos que Berlusconi tem usado na Itália… Afinal os Conselhos Europeus servem para alguma coisa…

Mas nem é preciso ir para casos de índole criminal! Basta lembrarmo-nos da lista gigantesca de promessas feitas à esquerda e à direita e que raramente têm seguimento excepto em coisas que não interessam nem ao menino Jesus (expressão que utilizo muito apesar da minha completa falta de fé). Basta pensarmos na falta de classe dos nossos políticos que em plena Assembleia da República fazem “cornos” a outros deputados ou que se ameaçam mutuamente com “porrada”.

E depois há pessoas que querem aumentar estes energúmenos? Deviam era receber bastante menos e terem uma proibição liminar de ocupar cargos privados durante os 5 anos após saírem de um cargo político, a ver se só iam para lá aqueles que têm os interesses de Portugal em mente.

Agora, a culpa é de quem? É deles, com certeza, mas também é nossa que nada fazemos. Há uns tempos, por ocasião das Presidenciais, utilizei o Facebook para instigar as pessoas em relação à utilidade de votar. Era cheia de sarcasmo a minha sugestão que a abstenção era útil. Mas…

(Revolutionary hat on)

Começo a concordar com os argumentos anarquistas que votar, mesmo em branco ou nulo, é dar legitimidade ao regime. Votar branco ou nulo é a mesma coisa que dizer “são todos maus, mas se houvesse um bom ainda votava nele”. O meu problema com este raciocínio é que estamos desde 1976 (não incluo o PREC por razões que julgo não necessitarem de explicação) à espera que apareça um “bom”. E, estranho!, nunca aparece. Das duas uma, ou nós somos o país com mais azar do Mundo, ou o sistema está tão podre e tão mal feito que só dando uma volta bem séria a isto tudo é que conseguimos alguma coisa.

Eu nunca defenderia uma reacção como a que hoje vemos em vários países árabes. Não estamos com desemprego jovem particularmente alto, não temos políticos corruptos, não estamos numa crise económica e financeira que dura já há uma década. Acima de tudo, estamos numa democracia multi-partidária, algo que toda a gente põe num pedestal por ser “o pior de todos os regimes, se excluirmos todos os outros” (não estamos no IEP da UCP mas continuamos a ter obrigação de o citar).

Claro que toda a gente se esquece da primeira parte dessa frase… E não conseguem olhar para lá dela e perceber que se calhar nem todos os regimes foram já inventados (gosto particularmente de notar que, em termos de regimes, com algumas – poucas – diferenças, não se evoluiu nada desde que a República Romana foi implantada em 509 a.C.).

Mas deixem, continuemos assim. Talvez tenhamos sorte no próximo boletim de voto e haja algum “bom” em que(m) votar.

 

Pedro Costa


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