The Last (Keynote)Speech

Após menos de um ano, decidimos que estava na altura de arrumar a tenda. Esta tenda, pelo menos. O blog já tinha estagnado há algum tempo e sempre que isso acontece, é difícil recuperar a vitalidade que isto até chegou a ter. Contudo, não temam, meus filhos: dentro de poucos dias, e ainda este ano, alguns de nós (e outros) vamos começar um blog novo. Antes disso, deixem-me agradecer a todos os que por aqui passaram, colaboradores e leitores. Espero que tenham gostado. Eu gostei, e acho que por aqui passaram ideias que valem a pena e textos que vão merecer ser re-lidos, razão pela qual o blog não vai ser apagado, antes abandonado.

 

Não havia melhor maneira de acabar as contribuições para este espaço do que com este discurso que se segue. Este texto, do filme The Great Dictator de Chaplin (1940), reúne todos os elementos em que todos os que por aqui passaram se revêem. Inicialmente, queria apenas citar algumas frases, mas como essa tarefa revelou-se impossível num texto tão sublime, aqui segue em toda a sua extensão. In the name of democracy, let’s all unite.

 

 

I’m sorry but I don’t want to be an emperor. That’s not my business. I don’t want to rule or conquer anyone. I should like to help everyone if possible; Jew, Gentile, black men, white. We all want to help one another. Human beings are like that. We want to live by each others’ happiness, not by each other’s misery. We don’t want to hate and despise one another. In this world there is room for everyone. And the good earth is rich and can provide for everyone. The way of life can be free and beautiful, but we have lost the way.

Greed has poisoned men’s souls; has barricaded the world with hate; has goose-stepped us into misery and bloodshed. We have developed speed, but we have shut ourselves in. Machinery that gives abundance has left us in want. Our knowledge as made us cynical; our cleverness, hard and unkind. We think too much and feel too little. More than machinery we need humanity. More than cleverness, we need kindness and gentleness. Without these qualities, life will be violent and all will be lost. The aeroplane and the radio have brought us closer together. The very nature of these inventions cries out for the goodness in man; cries out for universal brotherhood; for the unity of us all.

Even now my voice is reaching millions throughout the world, millions of despairing men, women, and little children, victims of a system that makes men torture and imprison innocent people. To those who can hear me, I say “Do not despair.” The misery that is now upon us is but the passing of greed, the bitterness of men who fear the way of human progress. The hate of men will pass, and dictators die, and the power they took from the people will return to the people. And so long as men die, liberty will never perish.

Soldiers! Don’t give yourselves to brutes, men who despise you and enslave you; who regiment your lives, tell you what to do, what to think and what to feel! Who drill you, diet you, treat you like cattle, use you as cannon fodder! Don’t give yourselves to these unnatural men—machine men with machine minds and machine hearts! You are not machines! You are not cattle! You are men! You have a love of humanity in your hearts! You don’t hate! Only the unloved hate; the unloved and the unnatural.

Soldiers! Don’t fight for slavery! Fight for liberty! In the seventeenth chapter of St. Luke, it’s written “the kingdom of God is within man”, not one man nor a group of men, but in all men! In you! You, the people, have the power, the power to create machines, the power to create happiness! You, the people, have the power to make this life free and beautiful, to make this life a wonderful adventure. Then in the name of democracy, let us use that power.

Let us all unite. Let us fight for a new world, a decent world that will give men a chance to work, that will give youth a future and old age a security. By the promise of these things, brutes have risen to power. But they lie! They do not fulfill their promise. They never will! Dictators free themselves but they enslave the people! Now let us fight to fulfill that promise! Let us fight to free the world! To do away with national barriers! To do away with greed, with hate and intolerance! Let us fight for a world of reason, a world where science and progress will lead to all men’s happiness.

Soldiers, in the name of democracy, let us all unite!

 

 

 

P. S. – a razão pela qual este blog vai à vida é porque Politikon Zuon não se escreve assim, antes Politikon Zoon. Aqui fica a errata que nos estragou os planos.


Ruptura FORa

Parece que a Ruptura/FER, o último crepúsculo verdadeiramente anti-parlamentar dentro do BE, decidiu abandonar o Bloco. Brevemente, dizem, formarão um novo partido político.

 

Para além de se terem precipitado para uma inevitável e eterna auto-exclusão, há um ou dois aspectos que são minimamente interessantes de analisar. A saber:

-       Mesmo sendo este grupo de longe o mais radical do BE de até agora, a verdade é que o argumento que apresentaram para a sua saída – a ausência de debate interno e a manutenção a todo o custo de uma direcção tornada autista por não ter tirado as devidas lições dos últimos resultados eleitorais – não deixa de ser plausível. A resposta aos resultados das últimas eleições (que constituíram o primeiro recuo do BE nas intenções de voto desde a sua primeira eleição para a AR) mostrou uma direcção que, surpreendida, decidiu deixar tudo como está. Este imobilismo foi amplamente criticado, e muito mais por muitos outros sectores que a esquerda do BE. Seria desejável que esta acção mais vincada da Ruptura/FER marque uma mudança na direcção.

 

-       Essa mudança de direcção não deve ser, contudo, na direcção da Ruptura/FER. Antes pelo contrário. O comportamento do BE nos últimos anos (como aliás tem sido repetido por um leque abrangente de comentadores) tem sido de um típico partido de protesto, sem nenhum contributo palpável, à excepção das questões fracturantes, para a resolução dos inúmeros problemas que Portugal (e, porque não?, a Europa) enfrenta. No entanto, o BE não despiu nem a esquerda nem a sociedade, de preconceitos. Despiu parte da esquerda de credibilidade, sobretudo. Agarrados a uma vulgata ultrapassada pelo tempo, o BE não fez mais nada do que folclore em doses de intervenções parlamentares de três minutos e outdoors visualmente atractivos.

 

A meu ver, o BE pode aproveitar esta altura para fazer o que já devia ter feito – a altura ideal seria na ressaca das últimas eleições legislativas: apurar as causas que levaram à queda de apoiantes e apontar uma nova direcção composta maioritariamente por elementos da geração pós-criação, com novas ideias, novos rumos (curiosa expressão, esta). Há espaço para o BE em Portugal, sim; mas não como partido de protesto. A solução ideal para o BE, na minha opinião, seria seguir um rumo próximo dos Verdes alemães: sem arrepiar necessariamente caminho das suas convicções, assumir um comportamento mais responsável e, por uma vez, tomar parte da solução. Se o BE se transformar num BE governamentável, talvez nessa altura olhe menos para o Bloco como uma sortido  de radicais e mais como um projecto interessante. E credível, sobretudo.

 


A Greve e as Manifestações

Sim, com letra grande. A Esquerda, além de tratar as revoluções pelo nome próprio (Abril, Maio, etc), escreve a palavra Greve com G maiúsculo.

Para os que desdenham a Greve Geral de hoje, os que se perguntam o que é uma Greve e para que serve. A Greve é o instrumento de luta laboral, sendo inclusive aquele cuja legitimidade não deixa margem para dúvidas: está consagrado constitucionalmente o direito à Greve. A Greve surgiu como uma forma de equilibrar as partes em confronto no plano laboral. Os empregadores tinham a faca e o queijo na mão, estando os trabalhadores numa posição bastante inferior. Deste modo, a Lei atribui o direito de Greve como um meio de equilíbrio, um meio de os trabalhadores poderem reivindicar a melhoria das suas condições sem represálias. Há subordinação do trabalhador ao empregador no contrato de trabalho, mas não há subjugação.

Adiante, para os que acusam os grevistas de não quererem trabalhar, defendendo que a Greve não serve, nem nunca serviu para nada (sim, o pessoal da pança cheia, mas sobre isso falamos depois): quanto ao passado, acho que todas as conquistas dos trabalhadores desde o século XIX respondem a essa pergunta. O descanso semanal, a diminuição das horas de trabalho, o aumento dos salários, etc, são tudo conquistas dos trabalhadores (a muito custo). Quanto ao presente, posso dar muitos exemplos, mas quero destacar três, em Portugal. Os trabalhadores da TAP conseguiram nos últimos anos inúmeras conquistas. A CP é um outro exemplo flagrante. Deve ser a empresa que faz mais greves e sempre com sucesso, sucesso esse que chega a ser demais (“picas” a ganhar 2000€, enfim…). Por último, o exemplo dos professores que arrumaram a um canto o modelo de avaliação que o Governo Sócrates queria impor. Chega? No estrangeiro, basta relembrar a razão pela qual o Porto de Nova Iorque não vê uma Greve há anos sem fim. Nas negociações, basta a simples menção da palavra “Greve” para que os Sindicatos consigam cedências por parte dos empregadores. São exemplos de sucesso adquirido pela Greve, que devem servir de exemplo. Nesta altura em que o Governo Passos já nos enfiou pelo dito cujo acima postes de electricidade que davam para iluminar a 2ª Circular inteira, é importante o recurso a esta forma de luta laboral para dizer Basta! O Povo está cansado de pagar as asneiras dos governantes! A malta não tem dinheiro e continua a ser enrabada! Chega!

Os que criticam a Greve inserem-se em dois grupos: por um lado, temos a malta da pança cheia, na qual se inserem os “comentadeiros” da nossa praça, todos os que criticam do alto do pedestal esta gente, que pensa pela sua cabeça e pelo seu bolso vazio. Por outro lado, temos o chamado corno manso, aquele que não se importa, o que podia ser privado do ordenado inteiro que ainda assim achava justo e criticava quem se insurgisse.

Ao contrário do que já li, as manifestações não são anti-democráticas (sim, li isto e nem vou referir o nome da personagem), são a prova viva da democracia, é o pôr em prática uma consciência cívica que começa a rarear neste mundo tecnocrata em que vivemos. Sim, o sistema está doente e bem doente. Mas não é a democracia que está doente, é esta partidocracia que nos governa, que nos sufoca, que não responde ao Povo, que se serve em vez de servir. Especialmente entre nós, os mais jovens, somos os mais sufocados por esta partidocracia que nos despreza, pelos gatos gordos que chegam lá acima através do “lambe-botismo” e depois olha cá para baixo com desdém. Esses são os piores. A minha geração não quer ser igual aos gatos gordos. Apenas quer uma oportunidade, uma oportunidade que surja cá (precisamos de emigrar para ter sucesso), uma oportunidade de demonstrar que podem ser melhores do que os incompetentes dos chefes e que merecem ser justamente remunerados por isso. Uma oportunidade de chegar lá por mérito e não a lamber as botas dos mais velhos. Só isso.

Por último queria referir aquela que para mim é a pior crítica que se pode fazer às manifestações (sim, já deixei a Greve): que são organizadas por pessoal que não sabe o que quer, que não aponta soluções nem alternativas. É um enorme preconceito. As pessoas querem fazer parte da solução, por isso é que se manifestam, se não quisessem fazer parte da solução não se mexiam. Percebam que não são as pessoas que têm que se aproximar deste sistema doente, é o sistema que supostamente existe para nos servir, é o sistema que tem que se aproximar do Povo. Só podemos demonstrar a nossa indignação desta forma, demonstrar a indignação perante aqueles 200 e tal tipos pagos a peso de ouro para, esses sim, pensarem nas alternativas.

A luta continua!

 


A semana

- A Grécia parece que já tem primeiro-ministro, depois da história toda do referendo e da demissão de Papandreou quer ganhasse o voto de confiança, quer perdesse, o que para mim faz todo o sentido *ironia*. Finalmente houve acordo entre o PASOK e o líder do partido da oposição, que assumiu uma postura de bloqueio irresponsável, partido esse, relembre-se, foi o que colocou a Grécia no buraco.

- Em Itália, Berlusconi vai embora porque os mercados assim o querem. Apesar de ser Berlusconi, não consigo deixar de ficar nervoso por ver um líder democraticamente eleito ter que se demitir por vontade dos mercados. Entretanto, parece que à medida que os juros subiam, a bolsa de Milão também subia. Ele há coisas…

- Poderia isto acontecer em Portugal? Nem duvido. Apesar de a nossa Constituição, no seu artigo 80º, postular que o poder económico deve estar subordinado ao poder político, a verdade é que já percebemos que nem em nossa casa podemos mandar já. Os mercados não deixam…a falta de liderança na Europa também não.

- Entretanto, Merkel e Sarkozy seguem a sua cruzada implacável contra os “nojentos” países mediterrânicos. Agora parece que andam a discutir a criação de uma zona euro mais pequena, sem os doentes países mediterrânicos, apenas com os limpos países do Norte, a Alemanha, que recorde-se conduziu a Europa a duas guerras. Foi um erro a reunificação alemã? Foi. A França, com o pequeno Sarkozy ao leme lá vai aproveitando a embalagem alemã. Sarkozy fará aprovar novas medidas de austeridade (preventivas, diz ele). Pois, preventivas, todos nós sabemos que o rating ainda não baixou só por razões políticas. Ai se fosse num país mediterrânico…Hollande, ganha isso, precisamos de ti.

- Depois de Vasco Lourenço, foi a vez de Otelo Saraiva de Carvalho vir ameaçar com um golpe militar. Pois, os militares são os únicos que vão ter que fazer sacrifícios, o resto da populaça vive bem, actualmente e 2012 promete ser um ano maravilhoso. Se no caso de Otelo já nem digo nada (ouvi alguém dizer FP-25?), no caso de Lourenço é triste ver uma figura de Abril descer ao mesmo nível.

- Continuando neste cantinho à beira-mar plantado, um sem-abrigo vai ser julgado por ter tentado furtar seis chocolates do Lidl. Por outro lado, Duarte Lima continua desaparecido, sem ninguém se importar com isso e o processo Face Oculta começou para acabar como todos sabemos, com a montanha a parir um rato.

- Na discussão do ultra austero Orçamento de 2012, anda tudo entretido, depois da enorme discussão à volta do leite com chocolate, anda tudo entretido, dizia eu, a discutir almofadas. Vem a propósito, muitos deputados andam lá a dormir.

- Finalmente, os passes sociais vão aumentar de preço e há propostas para reduzir o funcionamento do metro e dos autocarros. Faz todo o sentido, no fundo só os ricos é que andam de transportes públicos. Os pobres têm todos carro, não é?


Descubra as diferenças

“Queremos criar emprego…para que os jovens portugueses não tenham que emigrar para terem sucesso” – Pedro Passos Coelho, chefe de Governo, Maio 2011

“Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras” – Miguel Mestre, secretário de Estado da Juventude e do Desporto deste Governo, Outubro 2011


A hierarquia actual da União Europeia.


Mea Culpa

Num dos anteriores posts critiquei a falta de intervenção do Presidente da República neste assalto perpetrado pelo Governo. Pois bem, venho aqui publicamente desculpar-me. Li, entretanto, a intervenção de Cavaco Silva que resolveu dizer “chega!”. Um bem-haja. Contudo, não queria deixar isto passar sem colocar aqui um excerto da crónica de Miguel Sousa Tavares no Expresso de hoje:

“E que a mudança de mentalidade é condição primeira para um dia controlarmos o “monstro” foi esta semana exuberantemente exemplificado pelo pai do próprio, o professor de Finanças Públicas Aníbal Cavaco Silva. Ele, que, numa década irrepetível de abundância de dinheiros europeus, conseguiu governar com défices de 6 e 7%, ele que acrescentou funcionários públicos e tornou a Segurança Social insustentável, veio agora revoltar-se contra o governo que ajudou a instalar, porque ousaram tocar na sua pensão de funcionário público e na da sua mulher. A reacção epidérmica de Cavaco Silva é todo um tratado sobre esse mal de que padecemos há séculos: até um professor de Finanças se recusa a entender que, quando o Estado não tem dinheiro, não pode pagar.”


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